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Estudo sobre a Igualdade de Género nas Organizações Científicas

O International Science Council /Conselho Internacional de Ciência (ISC), a InterAcademy Partnership /Parceria Interacadémica (IAP) e o Standing Committee for Gender Equality in Science /Comité Permanente para a Igualdade de Género na Ciência (SCGES) realizaram, durante 2025, um estudo global sobre a igualdade de género nas organizações científicas. O Relatório Towards gender equality in scientific organizations:assessement and recommendations, DOI: 10.24948/2026.0, foi publicado em fevereiro de 2026 e apresenta a avaliação global mais abrangente, até à data, sobre o tópico. Encontra-se disponível em: https://council.science/publications/towards-gender-equality-in-scientific-organizations/.

As academias de ciências, medicina e engenharia, em conjunto com as associações científicas internacionais, desempenham um papel importante na definição das agendas científicas, no reconhecimento da excelência científica e no aconselhamento dos decisores políticos. As persistentes disparidades de género nestas organizações, considerando a participação das mulheres na força de trabalho científico, levantam questões sobre a possibilidade de estas poderem participar, liderar e ser reconhecidas nessas organizações em condições de igualdade. A análise descrita no relatório baseia-se em dados obtidos de 136 organizações, respostas a questionários de quase 600 cientistas e uma dezena de entrevistas com representantes de organizações científicas. Tendo por base inquéritos online realizados em 2015 e 2020, o estudo oferece uma perspetiva da evolução, durante dez anos, sobre o progresso e as lacunas que persistem. Identifica barreiras estruturais à igualdade de género e destaca áreas em que as políticas e práticas institucionais contribuíram para alterações mensuráveis.

Principais conclusões do Estudo (com base no divulgado pelos autores)

O progresso é real, embora desigual. Apesar dos ganhos globais desde 2015, as mulheres continuam a estar sub-representadas nas organizações científicas face à sua participação na força de trabalho científico global.

Nas academias nacionais, as mulheres representavam, em média, 19% dos seus membros em 2025, enquanto eram 12% em 2015 e 16% em 2020. Acresce que a proporção de academias com uma representação muito baixa (menos de 10% de mulheres entre os membros) caiu cerca de metade desde 2015.

Nas uniões científicas internacionais, a representação feminina varia principalmente por área, refletindo diferenças nas trajetórias disciplinares e não nos contextos nacionais ou institucionais. As disparidades de género na representação não decorrem de restrições explícitas à elegibilidade das mulheres.

A maioria das organizações científicas reporta procedimentos formalmente abertos e baseados no mérito. No entanto, os processos de nomeação conduzidos pelos membros existentes, juntamente com a dependência de redes informais, continuam a moldar quem é identificado e nomeado. Na maioria dos casos, as mulheres continuam sub-representadas nas listas de nomeações em relação à sua presença na comunidade científica. Uma vez nomeadas, porém, as mulheres são eleitas com taxas ligeiramente superiores à sua participação nas listas de nomeações, indicando que as principais restrições se verificam antes das decisões formais de seleção.

A representação nas academias não equivale a influência. Embora a representação feminina tenha aumentado em muitas organizações, tal não se traduziu consistentemente em cargos de liderança e de tomada de decisão. As mulheres continuam sub-representadas em cargos de presidência e em órgãos de direção superiores, indicando que a influência dentro das organizações permanece desigualmente distribuída. A participação é comparável; as experiências e oportunidades não. As mulheres que servem em organizações científicas participam como os homens mas isso não leva a uma progressão ou reconhecimento comparáveis.

Embora as políticas e práticas de igualdade de género estejam cada vez mais presentes, ainda estãopouco institucionalizadas. Mais de 60% das academias e uniões internacionais referem ter apresentado documentos ou iniciativas políticas com o objetivo de promover a igualdade de género. No entanto, estes esforços limitam-se geralmente à sensibilização ou ao incentivo, e raramente são apoiados por estruturas dedicadas, recursos financeiros ou humanos, ou mecanismos de avaliação. Como resultado, os esforços em prol da igualdade de género tendem a manter-se à margem dos principais processos de governação e, muitas vezes, dependem mais do empenho dos intervenientes individuais do que de um envolvimento institucional sustentado.